Homens de Coragem

CORAGEM PARA SER DIFERENTE, COMPROMISSO PARA FAZER DIFERENÇA.

Entendendo a submissão da mulher. Parte I

 

Maurício Zágari

 

Preciso dar um grande suspiro antes de começar a escrever este texto. Pois já sei, antes mesmo de começar a digitá-lo, que lá vem bomba. Durante os nove anos em que dei aula em seminário teológico, os assuntos que sempre incendiavam a sala de aula eram, mais do que quaisquer outros, divórcio e… a submissão da mulher ao marido. Era acabar a aula e eu estava moído pelas discussões levantadas pelas irmãs que não se conformavam em ouvir que tinham de ser submissas a seus maridos ou por homens que não compreendiam bem esse conceito e abusavam de seu papel de cabeça da esposa. Então, quando me proponho a escrever um artigo sobre o assunto, sei que é um terreno difícil.

Pretendo fazer a seguir o que minha experiência com esses anos de abordagem do tema ensinou-me: tentar me ater exclusivamente ao que a Bíblia afirma sobre a questão e me eximir ao máximo possível de qualquer opinião pessoal, para evitar que pareça uma explanação parcial. Vamos lá.

A submissão da mulher ao esposo é bíblica e está presente tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Listo aqui algumas passagens que versam sobre o assunto:

“À mulher, ele [Deus] declarou: ‘Multiplicarei grandemente o seu sofrimento na gravidez; com sofrimento você dará à luz filhos. Seu desejo será para o seu marido, e ele a dominará’” (Gn 3.16).

“Mulheres, sujeite-se cada uma a seu marido, como ao Senhor, pois o marido é o cabeça da mulher, como também Cristo é o cabeça da igreja, que é o seu corpo, do qual ele é o Salvador. Assim como a igreja está sujeita a Cristo, também as mulheres estejam em tudo sujeitas a seus maridos” (Ef 5.22-24).

“Mulheres, sujeite-se cada uma a seu marido, como convém a quem está no Senhor” (Cl 3.18).

“Semelhantemente, ensine as mulheres mais velhas a serem reverentes na sua maneira de viver, a não serem caluniadoras nem escravizadas a muito vinho, mas a serem capazes de ensinar o que é bom. Assim, poderão orientar as mulheres mais jovens a amarem seus maridos e seus filhos, a serem prudentes e puras, a estarem ocupadas em casa, e a serem bondosas e sujeitas a seus maridos, a fim de que a palavra de Deus não seja difamada” (Tt 2.3-5).

“Mulheres, sujeite-se cada uma a seu marido, a fim de que, se ele não obedece à palavra, seja ganho sem palavras, pelo procedimento de sua mulher, observando a conduta honesta e respeitosa de vocês” (1Pe 3.1-2).

A submissão da esposa ao marido é, assim, um fato bíblico. Afirmada e reafirmada, por Deus e por apóstolos de Cristo, como Pedro e Paulo. Inquestionável. Mas, antes que alguns homens comecem a sorrir, felizes por, aparentemente, serem os mandachuvas do pedaço, precisamos esmiuçar alguns aspectos do assunto. Pois a submissão é fato, sim, mas compreender o que ela significa já são outros quinhentos. Meu objetivo ao tratar desta questão é tentar esclarecer dúvidas e, queira Deus, conduzir você mais para o centro da vontade do Senhor.

 1. Submissão não é escravidão

Este ponto é fundamental, pois um grande erro que vemos entre muitos homens cristãos é a distorção do que significa de fato o conceito bíblico de submissão. Ser submissa não é ser escrava, tampouco é ser um robô que acata ordens sem questionar. Submissão tem a ver com hierarquia e com os papeis de cada pessoa dentro de uma estrutura organizada – no caso, o casamento. Não tem absolutamente nada a ver com abaixar a cabeça para tudo, abster-se de expor o que se pensa ou ter menos valor do que o outro.

Precisamos ter claro em nossa mente esse conceito de hierarquia. Hierarquia significa, segundo o dicionário Houaiss, “organização fundada sobre uma ordem de prioridade entre os elementos de um conjunto ou sobre relações de subordinação entre os membros de um grupo, com graus sucessivos de poderes, de situação e de responsabilidades”. Ou seja, toda organização é formada por pessoas que detém poderes e responsabilidades diferentes umas das outras.

Essencialmente, o que a hierarquia estabelece é quem tem mais responsabilidade de tomar decisões.

Para que você compreenda bem o que isso quer dizer, proponho que mudemos de perspectiva. Deixemos de lado por um tempo o casamento e pensemos em outras instituições. Um time de futebol, por exemplo. Quem é mais importante no time: o goleiro, o zagueiro, o atacante, o capitão ou o técnico? Na verdade, nenhum deles. Pois hierarquia não tem a ver com “ser mais importante que alguém”, tem a ver com que papel cada um desempenha e que poder de decisão esse papel confere a você. Assim, um time sem goleiro está seriamente desfalcado. Sem um técnico, perde o cérebro. Sem atacantes, não faz gol. Cada um tem seu papel, sua importância, suas características. Se o lateral põe a mão na área em vez do goleiro, é pênalti. Se o técnico invade o campo e chuta a bola, é expulso para o vestiário. É o capitão quem levanta o troféu. É o goleiro quem pode pôr a mão na bola. É o técnico quem decide quem bate o pênalti. Assim, na hierarquia de um time de futebol, todos são importantes, mas cada um tem um papel específico, com características próprias.

Na questão do poder de decisão é que entra a submissão. Qualquer jogador tem liberdade de decidir para que lado chutar a bola que chegou aos seus pés. Mas cabe ao capitão escolher o campo, no cara-ou-coroa antes de o jogo começar. E se o capitão quer muito seguir jogando, mas o técnico, que é seu superior hierárquico – logo, a quem ele deve submissão – decidir substituí-lo por um reserva, por mais que o capitão mande dentro do campo ele vai ter de acatar a autoridade do técnico e se sentar no banco pelo resto do jogo. Hierarquia faz isso.

Por ter a ver com poder de decisão, a submissão está atrelada a outro elemento fundamental: a capacidade de arbitrar. É o que um juiz faz num tribunal, por exemplo: Fulano diz uma coisa e Beltrano diz outra; como não há consenso, portanto o juiz arbitra qual dos dois está certo. No futebol, quem faz isso é o juiz do jogo (não à toa chamado de “árbitro”). Em campo, ele é a autoridade máxima. Ele tem todo poder de decisão. Tem tanto poder de decisão que por vezes comete injustiças: anula gols válidos, expulsa jogadores que não fizeram falta, apita pênaltis que não existiram. Pois ele tem o papel de decidir. Foi pênalti ou não? Ele decide, pois todos são submissos a sua autoridade hierárquica. A falta é para cartão vermelho ou não? Ele decide, pois todos são submissos a sua autoridade hierárquica. Foi impedimento? Ele decide, pois todos são submissos a sua autoridade hierárquica. A bola quicou depois da linha do gol ou antes? Ele decide, pois todos são submissos a sua autoridade hierárquica.

Mas, se o juiz fizer uma péssima arbitragem, as instâncias superiores podem não escalá-lo mais para jogos do campeonato. Porque todo líder hierárquico sempre está submisso a outra instância.

Na família não é muito diferente. Marido e esposa são igualmente importantes. Marido e esposa são essenciais. Marido e esposa têm vontade própria e poder de decisão, quando “a bola está no seu pé”. Mas Deus – que tem o supremo poder de decisão – decidiu, em sua soberania, delegar ao marido a autoridade hierárquica no lar. Isso significa que, num impasse, é a ele que foi outorgado o poder de decisão na família. A esposa pode e deve expor sua visão. A boa esposa, aliás, argumenta com amor e aconselha. A rixosa não: ou ela quer mandar ou nem mesmo dialoga. É indispensável que a mulher tenha a possibilidade de dizer tudo o que se passa em seu coração sobre determinado impasse. O homem de coragem é aquele que está sempre aberto e atento ao que a esposa pensa, sente e diz. Mas, no fim, cabe ao marido decidir.

Isso é que muitas mulheres não aceitam. Por que ele é quem tem a palavra final? Por que não podemos decidir em conjunto? Por que não pode valer a minha decisão? Todas essas perguntas têm resposta. Por que ele é quem tem a palavra final? Porque Deus determinou que fosse assim. Por que não podemos decidir em conjunto? Seria o ideal, mas, na prática, muitas vezes, cria-se um impasse, ninguém quer ceder e é preciso alguém arbitrar. Por que não pode valer a minha decisão? Se você e seu marido forem sábios, ela valerá – mas ele tem de estar de acordo.

Quando digo que cabe ao marido decidir, isso soa a você, homem, como um grande privilégio ou um grande poder? Bem, não se esqueça de uma coisa: o marido terá de prestar contas às instâncias superiores de cada decisão tomada (do mesmo modo que a esposa terá de prestar contas se decidir se rebelar contra a autoridade dele). Quando você pensa nisso, fica claro que o peso da responsabilidade sobre o homem é gigantesca. Pois, como vimos na definição de hierarquia, ela confere poderes, sim, mas, atrelada a eles, cobra responsabilidade.

Marido que me lê, lembre-se disto: Deus deu a você o poder de arbitrar nas questões do lar. E é de você que cada arbitragem será cobrada. Ai de você se tomar decisões com base no egoísmo, no machismo, naquilo que não é o melhor para a sua esposa, para a sua família. Pois a sua decisão tem obrigatoriamente de ser tomada com base neste mandamento: “Maridos, ame cada um a sua mulher, assim como Cristo amou a igreja e entregou-se por ela” (Ef 5.25). E aqui está o ponto-chave. As decisões do marido devem, obrigatoriamente, levar em conta os interesses da esposa, o que é melhor para ela e não para si. Deve considerá-la superior a si mesmo. Deve preferi-la em honra. Deve amá-la mais do que a si. Deve arbitrar pensando sempre: “Minha decisão é o que é melhor para minha esposa?”.

Sim, Deus deu ao homem a liderança hierárquica. Sim, nos impasses cabe ao marido decidir que escolha fazer. Sim, a escolha deve ser feita com base num amor pela esposa análogo ao que Cristo demonstrou pela igreja, sacrificando-se por ela (e, assim, pondo-a em primeiro lugar). E, sim, Deus vai cobrar cada decisão mesquinha e errada que o marido tomar.